Desassossego - Fragmento II

Um hálito de música ou de sonho, qualquer coisa que faça quase sentir, qualquer coisa que não faça pensar.

Sentir tudo de todas as maneiras; saber pensar com as emoções e sentir como pensamento; não desejar muito senão com a imaginação...Só o sonho vê com olhar.

Não me indigno, porque a indignação é para os fortes, não me resigno, porque a resignação é para os nobres; não me calo, porque o silêncio é para os grandes. E eu que não sou forte, nem nobre, nem grande. Sofro e sonho. Queixo-me porque sou fraco e, porque sou artista, entretenho-me a tecer musicais as minhas queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor minha idéia de os achar belos. Só lamento o não ser criança, para que pudesse crer nos meus sonhos, o não ser doido para que pudesse afastar da alma todos os que me cercam.

A análise constante das nossas sensações cria um modo novo de sentir, que parece artificial a quem analise só com a inteligência, que não com a própria sensação.

Há uma erudição do conhecimento, que é propriamente o que se chama erudição, e há uma erudição do entendimento, que é o que se chama cultura. Mas há também uma erudição da sensibilidade. A erudição da sensibilidade nada tem a ver com a experiência da vida. A experiência da vida nada ensina, como a historia nada informa. A verdadeira experiência consiste em restringir o contacto com a realidade e aumentar a análise desse contacto. Assim a sensibilidade se alarga e aprofunda, porque em nós está tudo; basta que o procuremos e o saibamos procurar.

Extraído do Livro do Desassossego - Fernando Pessoa
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