A Dama da Viola


A alma de uma artista não se intimida com o preconceito e nem com a idade. A alma de uma artista é livre para expressar através da sua viola toda a sua arte, cultura e sabedoria.

A alma de uma mulher apaixonada pela música é capaz de resistir e acreditar que é possível contagiar e transmitir todo seu sentimento através dos acordes de uma viola, mesmo quando toda uma sociedade machista e cheia de preconceitos diz que NÃO.

A alma de uma mulher, artista e guerreira é invencível. Ultrapassa a barreira do som e contagia multidões. Toca a alma, o coração.

A artista de alma suplime, vida simples, parteira, mãe, cantora de bares, analfabeta e autodidata, traz no dom a sua marca. Dom de compreender a musicalidade da vida e expressá-la por meio da sua viola. Viola da terra, cantiga de raiz. Sabedoria popular.

Helena Meirelles, é seu nome. Dama da Viola, considerada a melhor violeira do mundo. Nascida na Fazenda Jararaca, que ficava na Estrada Boiadeira, que liga Campo Grande ao porto 15 do Rio Paraná, divisa com o estado de São Paulo. Filha do boiadeiro paraguaio Ovídio Pereira da Silva e da mato-grossense Ramona Vaz Meirelles. Nasceu e cresceu em uma época em que a viola era um instrumento proibido para as mulheres, porém sem este instrumento seu mundo não teria o menor sentido. Cresceu rodeada de peões, comitivas e violeiros pantaneiros. Aprendeu a tocar sozinha e escondida, fugiu de casa aos 15 anos e teve o primeiro filho aos 17, de seu primeiro marido, com quem teve mais dois e viveu 8 anos.

Começou a surpreender desde jovem quando chegava e tocava até de graça em festas, bailes e bares de Mato Grosso do Sul e no interior oeste do Estado de São Paulo. Sua música seguiu os ritmos de sua região, com influências paraguaias, entre eles, o Chamamé, o Rasqueado e Polca.

Reconhecida pelos sul-mato-grossenses como expressão das raízes e da cultura da região, começou a ser divulgada fora de sua região, quando foi apresentada (1980) por Inezita Barroso no seu programa Mutirão, na rádio USP de São Paulo, tocando ao vivo e mostrando seu trabalho.

Tudo começou quando um seu sobrinho enviou para uma revista especializada norte-americana, uma fita com gravações feitas de maneira praticamente amadora. Assim, no ano seguinte, aos 69 anos, a revista estadunidense Guitar Player a escolheu como Instrumentista Revelação do Ano, com o Prêmio Spotlight (1993). Foi um extraordinário prêmio par quem injustamente antes não obtivera o merecido reconhecimento em seu país, talvez por puro preconceito contra sua arte.

Desde então passou a ser observada e valorizada por onde passou, tendo inclusive, no mesmo ano participado de um grande show em São Paulo com a dupla Tonico e Tinoco e, nos anos seguintes, gravou vários cd's.

Ela tocava também bandolim, rebeca e violão, mas foi com a viola que ela consagrou-se e revelou os encantos musicais de uma região de um país musical, dedicando a vida inteira ao som do mato e traduzindo a alma do pantaneiro. 

Aos 81 anos ( 2.005 ), esteve internada na Santa Casa de Campo Grande, Estado do Mato Grosso do Sul, por dez dias com pneumonia crônica nos dois pulmões, recebeu alta e, dois dias depois, morreu em casa, vítima de uma parada cárdio-respiratória, tendo seu corpo sido velado no cemitério Parque das Paineiras, na avenida Tamandaré.

Mas a alma dessa artista, mulher e guerreira continua viva imortalizada através de sua música.




Fonte: http://www.compadrelemos.com/audio.php?cod=13851

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