Aniversário - Fernando Pessoa

A inspiração para a publicação dessa série de posts poéticos, no Estrambólica Arte, surgiu com uma brincadeira do Facebook, onde devia-se publicar mais poesia na Rede e marcar outras pessoas para compartilhá-las. Fiquei muito feliz com as poesias que as pessoas envolvidas publicaram. Através de uma simples brincadeira, a Rede foi inundada com poesias. Por isso, o Estrambólica Arte, tem a honra de postar todas as poesias escolhidas e prestar uma homenagem a cada uma das pessoas que dedicaram um pouco do seu tempo para compartilhar palavras de amor.

Este poema é dedicado à minha amiga, TÂNIA, pois foi ela quem iniciou esta brincadeira.


Aniversário
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Fernando Pessoa
Postar um comentário

Postagens mais visitadas