Separados e Juntos: uma forma sana de viver!

Recebi um e-mail de uma amiga com o texto abaixo. O texto foi escrito por Carlos A. Vieira, médico, psicanalista da Soc. de Psicanálise de Brasilia e membro da FEBRAPSI-IPA-London. No texto ele cita uma poesia do Drummond que é linda. O texto me serviu como uma luva. Gostei tanto que quero compartilhá-lo  e deixa-lo registrado aqui no Estrambólica Arte. Afinal viver é uma ARTE. Compreender e respeitar o outro e a si mesmo é uma das maiores manifestações de amor. Então vamos ao texto.

O ser humano, o bebê, desde seu nascimento experimenta uma forma de relação chamada de “fusional”. Por que fusional? A condição humana é inicialmente de extrema dependência com relação à mãe ou qualquer outra pessoa que tenha a função maternal dada a falta de recursos para sobreviver sem a ajuda de outro ser humano. Esse fenômeno traz um modelo inicial de relação - o modelo da paixão, do entranhamento do Eu com o Outro, onde esse Outro ainda não é vivido como pessoa separada, individualizada e sim como extensão de si mesmo. O mítico amor de mãe cria e reassegura esse modo de ser no mundo, passando a ser a imagem de busca eterna da pessoa: sempre estamos querendo encontrar a "alma gêmea", o espelho, alguém que nos complete perfeitamente.

Entretanto, à medida que se cresce, experiências de separação vão acontecendo: o começo do andar, a capacidade de se alimentar com seus próprios recursos, a saída do quarto dos pais e a chegada de um lugar seu, somente seu, a ida para a escola, a adolescência, etc. Esses fatores criam espaços que passo a chamar de “espaços de separação”, do estar sozinho e por consequencia, desfundidos da mãe. Aqui é necessário lembrar que os pais, regra geral, não estão preparados para facilitar à criança uma “solidão amparada”. Até porque, também os pais não elaboraram suas angústias de separação e a tendência é fusionar, levar os filhos atrelados a eles. Separados e juntos é uma experiência psíquica necessária ao bem viver. Separados e juntos é um conceito dialético que mostra essa necessidade de ter limites, de ter fronteiras, de não ser o outro, mas sentir que o outro, ainda que separado, não o abandona. Nós humanos precisamos ter essa crença de ter alguém, e isso é dado pelas pessoas que fazem parte do nosso crescimento, mesmo que esse alguém não esteja na presença física – é o que se pode
chamar de um sentimento amoroso interno: a crença de que amamos e somos amados.

Separar e juntar, estar junto e estar sozinho são um treino permanente para assegurar a todas as pessoas um sentimento de liberdade, autonomia e autoestima. É fato muito comum ver pessoas que não suportam estar sozinhas, não toleram que seus parceiros não estejam atrelados, grudados. Necessitam sempre, de um modo até querelante, que as pessoas fiquem dizendo que gostam delas, que as amam e que elas não duvidem de serem amadas. Pois bem, prezado leitor, é importante manter nas relações afetivas momentos de estar sozinho, entremeados com momentos de junção, de presença física.

O que é a saudade senão a capacidade de ter o outro dentro de si, ainda que ausente fisicamente! Hoje, gostaria de mostrar passagens de uma prosa famosa do nosso Carlos Drummond de Andrade – "Divagação sobre as Ilhas". Texto recentemente publicado, em nova edição, pela Editora Cosacnaif, São Paulo, 2011 com o título de "Passeios na Ilha". Nesse texto, o nosso poeta maior e escritor cânone da literatura ocidental, escreve uma bela prosa poética, mostrando a necessidade do ser humano ter sua própria individualidade, seus momentos e espaços de “ilha” para preservar sua saúde mental e seu crescimento psíquico.

Escreve o poeta: “Quando me acontecer alguma pecúnia, passante de um milhão de cruzeiros, compro uma ilha; não muito longe do litoral, que o litoral faz falta; nem tão perto, também, que de lá possa eu aspirar a fumaça e a graxa do porto. Minha ilha (e só de a imaginar já me considero seu habitante) ficará no justo ponto de latitude e longitude que, pondo-me a coberto dos ventos, sereias e pestes, nem me afaste demasiado dos homens nem me obrigue a praticá-los diuturnamente. Porque esta é a ciência e, direi, a arte do bem viver; uma fuga relativa, e uma não muito estorvada confraternização.” Perceba, caro leitor, a genialidade e a capacidade intuitiva do poeta: ter sempre um espaço de vida que marque autonomia, liberdade e privacidade. Continua
o poeta: “ ... mas será que se procura realmente nas ilhas a ocasião de ser feliz, ou um modo de sê-lo? E só se alcançaria tal mercê, de índole extremamente subjetiva, no regaço de uma ilha, e não igualmente em terra comum?... Procuro uma ilha, como já procurei uma noiva... A ilha dever ser o quantum satis (na medida exata) selvagem, sem bichos superiores à força e ao medo do homem... Para esta ilha sóbria não se levará bíblia nem se carregarão discos... Nossa vida interior tende à inércia. E bem-vinda é a provocação que lhe avive a sensibilidade, impelindo-a aos devaneios que formam a crônica particular do homem, passada muitas vezes dentro dele, somente, mas compensando em variedade ou em profundeza o medíocre da vida social... Não levem
para as ilhas os problemas de hegemonia e ciúme... A ilha é meditação despojada, renúncia ao desejo de influir e atrair... Em geral, não se pedem companheiros, mas cúmplices. E este é o risco da convivência ideológica. Por outro lado, há certo gosto em pensar sozinho. É ato individual, como nascer e morrer. A ilha é, afinal de contas, o refúgio último da liberdade, que em toda a parte se busca destruir. Amemos a ilha.”

A prosa de Drummond é séria, profunda, psicologicamente acertada, e mais ainda: uma verdadeira lição para se viver, conviver, guardando com o parceiro ou com qualquer coisa que se tenha na vida, uma relação de juntos e separados, caso contrário não sobreviveremos às crises de “angústia de intrusão” em nossas vidas, os nossos momentos de “claustrofobia dentro de uma relação”.


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