A triste falta de amor pela gramática e a escrita

Por coincidência ontem estava lendo o Livro do Desassossego, do Fernando Pessoa, e os trechos abaixo me chamaram muito a atenção:

“Tive sempre uma repugnância quase física pelas coisas secretas – intrigas, diplomacia, sociedades secretas, ocultismos. Sobretudo me incomodaram sempre estas duas últimas coisas – a pretensão, que têm certos homens, de que, por entendimentos com Deuses ou Mestres, sabem – lá entre eles, exclusos todos nós outros – os grandes segredos que são os caboucos do mundo.”
“O que me impressiona, nesses mestres e sabedores do invisível, é que quando escrevem para nos contar ou sugerir os seus mistérios, escrevem mal. Ofende-me o entendimento que um homem seja capaz de dominar o Diabo e não seja capaz de dominar a língua portuguesa. Por que há o comércio com os demônios de ser mais fácil que o comércio com a gramática?”

“Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavras. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias vivas, sensualidades incorporadas”.

“Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomasse Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas, odeio com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro direto que me enjoa independemente de quem o cuspisse. Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio pelo qual é senhora e rainha.
Hoje ao lê a notícia sobre as notas da redação do ENEM estas palavras do Fernando Pessoa ganharam ainda mais peso.
De acordo com os dados do MEC, mais de 500 mil participantes do Enem obtiveram nota zero na redação, o equivalente à 8,5% dos candidatos. Somente 250 pessoas conseguiram o conceito máximo na área. O tema da redação foi “Publicidade Infantil” e, muito embora, este tema não tenha sido tão discutido quanto o tema da “Lei seca”, é espantoso o número de redações zeradas.
A nota da redação é zerada quando: o texto possui desenhos ou informações desconexas; o candidato deixa a prova em branco ou escreve menos de sete linhas; o participante desrespeita os Direitos Humanos; ou não segue o tipo de texto exigido -- dissertativo-argumentativo.
A perguntar que não quer calar e pode ter algumas respostas é: O que leva uma pessoa a zerar uma redação? Ouso dizer que o “Internetês” influência muito a capacidade cognitiva dos jovens, além da fragmentação das ideias que são disseminadas nas redes sociais. O imediatismo, a necessidade de resposta rápida faz com as pessoas percam a capacidade de aprofundamento. Somado a tudo isso o desinteresse pela leitura. Por fim o mais triste de todos os itens, a falta de amor pela palavra escrita e pela a nossa língua portuguesa. É uma pena que a grande maioria das pessoas não enxergue e escute as palavras, a ortografia, a sintaxe, a nossa língua portuguesa como o Fernando Pessoa.
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